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Postado em 01 de Março às 15h30

Fratelli Tutti: algumas palavras iniciais

Geral (52)
Diocese de Chapecó/SC      No túmulo de São Francisco de Assis, o Papa Francisco assinou sua mais recente Carta Encíclica, terceira de seu pontificado. O Papa marcou a memória deste grande santo da...

     No túmulo de São Francisco de Assis, o Papa Francisco assinou sua mais recente Carta Encíclica, terceira de seu pontificado. O Papa marcou a memória deste grande santo da Igreja com um chamado universal à fraternidade e à amizade social.
     Tendo como pano de fundo a pandemia da Covid-19, o Papa Francisco convida a “[...] uma forma de vida com o sabor do Evangelho” (FT 1), baseando-se nas Admoestações de São Francisco de Assis que, outrora, convidava a sermos “todos irmãos” (fratelli tutti). A inspiração é o santo de Assis, que carregou um ardente amor pelo Senhor, chegando a Ele pelo caminho dos “[...] pobres, abandonados, doentes, descartados, enfim, dos últimos” (FT 2). São Francisco mais se aproximava de Deus à medida que mais se aproximava dos irmãos (FT 3) e esse é o convite de nosso Papa, o Francisco que temos hoje à frente da Igreja.
     A dimensão universal do amor fraterno é a marca que perpassa todas as páginas da Fratelli Tutti. O texto divide-se em oito capítulos, onde o Papa faz uma análise dos problemas que assolam o mundo atualmente, como o medo, a falta de atenção às minorias, a cultura do descarte, a globalização e a não atenção aos direitos humanos. Provoca, ainda, a olhar para o mundo com abertura de coração, carregando a marca da solidariedade, com a promoção do bem moral, da gratuidade e do além fronteiras no que se refere ao cuidado com os irmãos, negando, assim, todo tipo de individualismo.
     O texto ainda traz apontamentos sobre a importância da boa política, que deve carregar a marca do amor e não da ideologia, da ilusão do dinheiro ou do nacionalismo egoísta. O Papa Francisco ainda aponta o diálogo como o caminho para uma verdadeira amizade social, com a formação para uma cultura diferente, enfatizando o encontro com os irmãos, a amabilidade, o perdão, o conflito que faz crescer, combatendo toda forma de ataque à vida. O Papa ainda denuncia a injustiça da guerra e da pena de morte. Por fim, o destaque é para o papel fundamental das religiões na promoção da fraternidade em todo o mundo. A proposta é para fugir da divisão e, por meio da unidade e da experiência com o mesmo Pai, promover o diálogo e a colaboração comum, atingindo todos os povos e nações.
     O texto do Papa Francisco baseia-se noutro assinado junto com o Grão Imame de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, em Abu Dhabi no ano de 2019, tratando da fraternidade em prol da paz mundial e da convivência comum . O objetivo é que se dê mais atenção à boa religiosidade, aquela praticada com humildade e que tem como objetivo a paz. A intenção é que se dê “[...] lugar para a reflexão que procede da formação religiosa que reúne séculos de experiência e sabedoria” (FT 275). Fraternidade e amizade social só serão possíveis se baseadas numa experiência real a partir “[...] de um renovado encontro com os setores mais pobres e vulneráveis” (FT 233), pois “as grandes transformações não são construídas na mesa ou no escritório” (FT 231).
     É evidente que o objetivo deste texto é apenas fazer uma apresentação geral à Fratelli Tutti . Não seria possível desdobrar, em tão poucas linhas, toda a riqueza que nos presenteou o Papa Francisco no texto desta encíclica. Seu grande sonho com esta publicação é o de que, “[...] perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras” (FT 6). O chamado é à ação, em vista da paz e do bem comum, embora seja lento e difícil em meio a tantas diferenças. Importa, portanto, “[...] gerar processos de encontro, processos que possam construir um povo capaz de colecionar as diferenças” (FT 217).
     Especialmente por sua humildade, São Francisco de Assis recebeu o título de “seráfico”, com referência à maior das hierarquias angélicas. Que cada um seja também portador desta humildade, a tal ponto de “dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância” (FT 106). A partir disso, com Cristo como referência, poderemos ser realmente fratelli tutti, alcançando o desejo de São Paulo: “que vosso amor seja sem hipocrisia, detestando o mal e apegados ao bem; com amor fraterno, tendo carinho uns para com os outros, cada um considerando os outros como mais digno de estima” (Rm 12,9-10).

 

Elisandro Guindani
Renan Paloschi Zanandréa

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