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Postado em 01 de Março às 16h40

ROMUALDO: PAIXÃO POR JESUS E PAIXÃO PELO POVO “AGORA, ESPERAR ...”

Destaque (29)
Diocese de Chapecó/SC Pe. Rogério L. Zanini A notícia da morte de quem amamos dói mais. “Sentimento de vazio”, “estou sem chão”, “não pode ser verdade”, “certas...

Pe. Rogério L. Zanini

A notícia da morte de quem amamos dói mais. “Sentimento de vazio”, “estou sem chão”, “não pode ser verdade”, “certas pessoas não deveriam morrer”. A emoção é mais forte do que a razão. É difícil expressar em palavras os sentimentos quando amamos. A morte, no entanto, bate na porta da vida de todas as pessoas, mais cedo ou tarde. Por isso, a necessidade de dar sentido à vida-morte das pessoas. Com o coração um tanto gelado, ainda, busquei pincelar algumas impressões a respeito dessa história tão linda do Padre Romualdo. A primeira passagem que salta aos olhos ao menos para um cristão é seu desejo de viver o Evangelho na sua concretude. Levou o Evangelho de Jesus Cristo a sério. Apesar de ser louvável esse caminho, coloca uma questão nodal para descrever a vida do Romualdo. Por que é necessário fazer um registro as ‘avessas’? Quer dizer, olhar a partir de baixo, do reverso da história para compreender sua missão. Nesse sentido, seu legado não poderá ser visto coerentemente pelos que olham a partir das ‘sacadas’ desse mundo, entretanto, pelos pobres e humildes que, como semente de mostarda, crescem no silêncio e anonimato da história. Uma semente fecunda que cai na terra (entrar na história), morre (despojamento total), para depois germinar na vida do povo (como ressuscitado por Deus), tornando sinal do Reino de Deus e sua justiça (cf. Mt 6,33).

Muitos vão noticiar sua morte e descrevê-la da melhor forma possível. Provavelmente, entre as palavras proferidas há de encontrar: homem pobre, humilde, amigo, reconciliador, justo, ético, místico, profeta, popular, cuidadoso, intelectual, servidor, equilibrado, comunicador, motivador das CEBs, criador dos ministérios leigos, círculos bíblicos, soube ligar fé e vida, amante dos pobres, entre outros. Que palavras fará justiça a esse testemunho? Pela convivência e proximidade ao longo dos anos, arriscaria configurar a vida do Romualdo, a partir de duas dimensões interligadas de sua identidade: homem apaixonado por Jesus e apaixonado pelo povo. São dois amores que formaram um ‘casamento perfeito’ na vida desse homem. O que Deus uniu ninguém pode separar. O amor a Jesus é fundamentalmente, amor às pessoas. Qualquer tentativa de eliminar uma, fere o cerne do evangelho, pois um amor a Deus que desconsidere as pessoas, quem quer seja, torna-se falso, segundo a carta de São João (1Jo 4, 20).

Essas duas características na vida cristã tem sido também, retomada com vigor com Papa Francisco. “Para ser evangelizadores com espírito é preciso também desenvolver o prazer espiritual de estar próximo da vida das pessoas, até descobrir que isto se torna fonte duma alegria superior. A missão é uma paixão por Jesus, e simultaneamente, uma paixão pelo seu povo” (EG 268). Quem participou de momentos celebrativos ou formativos, lembrará com facilidade que Romualdo ao se referir a Jesus, sempre enfatizava a vida simples, a encarnação proveniente de um casal pobre (José e Maria), acolhido pelos pobres, não porque Deus excluí os ricos, mas porque esses não aceitaram – não abriram as portas para Jesus. A espiritualidade da Galileia – tempo que Jesus passou 30 anos, ou seja, maior parte de sua vida no anonimato sempre ganhavam destaque nas reflexões do Romualdo. Tempo que Jesus cresceu em estatura, sabedoria e graça e foi discernindo a vontade do Pai que se concretiza no fazer acontecer o Reino de Deus. O Reino de Deus – o central na vida de Jesus – foi motivo da vida e crucificação de Jesus. Trata-se da missão profética – os riscos do Reino de Deus também acompanharam a vida e o testemunho do homem Romualdo. Passou por momentos difíceis quando precisou defender os pobres, os indígenas, os negros, as mulheres oprimidas, os direitos dos explorados, os colegas ameaçados... Sabemos que no fervor das homenagens – facilmente podemos suavizar os conflitos e ficar com um Romualdo sem a dimensão profética, o que seria uma injustiça que clamaria ao céu. Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino de Deus (cf. Mt 5,10). E para aqueles que desejam alimentar ou contornar o vigor profético do evangelho anunciado pelo Romualdo basta retomar suas palavras pronunciadas no jubileu dos 50 e 60 anos de vida sacerdotal. Nas duas ocasiões sua inspiração esteve alicerçada no cântico de Maria, no qual fica evidente que os grandes e poderosos precisam descer dos seus lugares e fazer a experiência das mãos vazias, condição necessária para que os pobres e famintos sejam saciados e libertados (cf. Lc 1, 52-53).

A paixão pelo povo foi outra característica marcante na vida do Romualdo. Sempre disposto a conversar e atender às pessoas. Atribuindo às palavra de Francisco – como Pastor sentia o cheiro das ovelhas, com sensibilidade aguçada para cuidar das mais frágeis e afastadas, com um coração cheio de misericórdia. Alguém que exercia a missão ‘com-paixão’ e sofria na pele as dores e necessitades do povo. Amava as pessoas e as compreendia na sua historicidade com suas fragilidades e potencialidades. As pessoas não eram um peso ou alguém que roubava seu tempo, mas era uma graça poder estar com elas e servir como podia. Seu lema de ordenação foi assumido com inteireza: “é necessário que ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 30). Homem, verdadeiro que sempre buscou servir as pessoas, sem aplausos, glórias, contudo, discretamente como pediu Jesus. Configurou seu coração com a marca do serviço às pessoas. Assim, como fez Jesus, compreendeu sua vida como um serviço para o bem dos outros (cf. Mt 20,28). No relacionamento com as pessoas tinha tempo, porque considerava cada uma, como alguém sagrado que precisava ser acolhida, abençoada, desafiada a seguir em frente com fé e esperança. O Papa tem criticado “a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas de Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros” (EG 270).

Com essas duas marcas: paixão por Jesus e paixão pelo povo trilhou seus dias, buscando fazer bem todas as suas atividades, como testemunha às pessoas a respeito de Jesus (cf. Mc 7,37. Jamais podemos comparar Romualdo com Jesus, porque isso seria contrariar até mesmo a sua própria vontade, que trabalhou incansavelmente, para fazer crescer o projeto de Jesus. Portanto, uma vida assim precisa ser incorporada entre os grandes seguidores de Jesus, evidentemente. Como nos lembra Francisco: “certamente todos somos chamados a crescer como evangelizadores. Devemos procurar simultaneamente uma melhor formação, um aprofundamento do nosso amor e um testemunho mais claro do Evangelho” (EG 121). “O testemunho de fé, que todo o cristão é chamado a oferecer, implica dizer como São Paulo: “Não que já o tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro para ver se o alcanço, (…) lançando-me para o que vem à frente” (Fl 3,12-13). Ao Romualdo certamente podemos aplicar as palavras de São Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Tm 4,7-8).

Pelo testemunho plantado entre nós, a oração do salmista torna-se digna a esse homem: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará. Não são assim os ímpios; mas são como a folha que o vento espalha” (Sl 1,1-4).

O Romualdo como pessoa plantada junto ao povo cedrense se transformará em semente de esperança, testemunhando que a causa de Jesus não é palha que o fogo queima, mas semente que quando lançada na terra, ressuscita através do amor de Deus, para produzir muitos frutos. O Romualdo é uma semente de esperança, porque com o testemunho de vida nos diz que vale a pena viver pela causa do Reino de Deus. Termino com uma expressão que ouvi dele horas antes de falecer, quando fui ao hospital visitá-lo. Disse-me cheio de esperança em viver: “agora, esperar...”. Pela paixão que tinha pela vida, certamente estava se referindo ao esperar o processo de recuperação. No entanto, como horas depois veio a falecer podemos também intuir, que esse esperar pode ter outro sentido. Esperar o que viria depois de uma vida dedicada ao serviço das pessoas? “Esperar que outros dão seguimento a Jesus? Esperar que nós padres tenhamos aprendido a lição, através do testemunho e seguisse a mesma trilha? Esperar que tantos cristãos sentem alegria de serem servidores do Reino? Esperar que os batizados sejam profetas, cada um ao seu modo, enquanto percorrem o caminho da vida? Esperar que no ano jubilar da Diocese não faltem missionários que respondem ao chamado de Deus? Esperar que os cedrenses sejam testemunhas de doação e cresçam na prática da solidariedade e do amor fraterno?”.

O profeta Jeremias lembra-nos que a pessoa que deposita sua confiança em Deus é como uma árvore plantada junto às boas águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Uma árvore que não se entristece quando chega o calor, porque as suas folhas estão sempre viçosas; não sofre de ansiedade durante o ano da seca nem deixará de dar seu fruto! (Jr 17,7-9). Romualdo é essa árvore boa que Deus plantou junto ao povo de Deus, particularmente ao povo de São José do Cedro por 29 anos. O testemunho convida-nos a abrigar-se embaixo dessa planta que noite e dia oferece coerência de vida, seiva do amor, raízes sólidas para o seguimento de Jesus.

Os primeiros cristãos tinham muito claro que a morte na perspectiva cristã, pautada pela fé na ressurreição, não era o fim ou sem sentido, mas poder de Deus para produzir novos cristãos. Sigamos com fé e esperança de que os frutos deixados pelo Romualdo nos converta em discípulos corajosos para também deixar tudo e seguir a Jesus .... (cf. Lc 5,11).

 

***
Pe. Romualdo Dyonisio Zimmer celebrou sua Páscoa no dia 20/02/2019, na cidade de São José do Cedro. O velório e seu enterro foram na mesma cidade, cuja paróquia, São José, foi onde o mesmo passou os últimos 28 anos de sua vida servindo ao povo de Deus e dando exemplo de humildade e amor à Deus. 

 

Na galeria abaixo fotos da missa de sétimo dia, celebrada no dia 27 de fevereiro em São José do Cedro.
Fotos: Keller Augusto Bresolin
 

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