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Postado em 24 de Fevereiro às 12h14

QUARESMA: CAMINHO E OPORTUNIDADE PARA CONSTRUIRMOS O MUNDO QUE DEUS REALMENTE QUER

Geral (41)

Marcada por um período intenso de oração, jejum e caridade, a Quaresma nos proporciona refazer o caminho de Jesus, retomando o nosso batismo, rumo à Páscoa, mistério fundamental de nossa fé. É uma oportunidade para comprometermo-nos na construção do mundo como realmente Deus quer: mundo de justiça, paz e fraternidade. Cada momento e cada celebração, portanto, devem ser forte experiência de êxodo, de passagem da escravidão para a liberdade, do individualismo para a solidariedade.

Quaresma como caminho catecumenal

Durante quarenta dias, a Quaresma nos ajuda a reviver a experiência do povo de Deus, que amadureceu sua fé na travessia do deserto, e a experiência de Jesus que, após intenso tempo de oração e jejum no deserto, assume sua missão com total entrega. Esse caminho para nós, cristãos, porém, não pode cessar logo após a passagem deste tempo forte. Ele é um processo contínuo, para a vida inteira. Por isso dizemos que a quaresma é também um caminho catecumenal.

Neste tempo favorável de busca e aprofundamento de nossa vocação de discípulos/as missionários/as de Cristo, assumimos percorrer, com Ele, o caminho que passa necessariamente pelas mais diversas tensões e tentações, caminho de total doação até a cruz, em fidelidade ao projeto do Pai.

A cada passo, vamos recebendo o vigor, a iluminação, a ternura e a alegria do seu Espírito para proclamarmos a vitória da vida, enquanto lutamos contra todas as formas de idolatria, violência, exploração, injustiça e morte, que, dolorosamente, persistem em nosso mundo, dominam, escravizam e degradam nossa condição humana frágil e pecadora.

Quaresma como caminho de reconciliação

A Quaresma, no seu conjunto ritual, é um grande sacramento de conversão e reconciliação, mediante o qual participamos na fé do mistério de Cristo que, vencendo as tentações, escolhe a atitude da compaixão e do amor incondicional, como servo humilde e sofredor, até a cruz. Mais do que uma preparação penitencial da Páscoa, a Quaresma constitui um ensaio da vida nova, pelo qual toda a Igreja é convocada a deixar-se “purificar do velho fermento para ser uma massa nova, levedada pela verdade” (cf. 1Cor 5,7-8).

Tomando uma atitude contra o consumismo, o jejum como autodomínio sobre nossa alimentação, nossas palavras, nossos sentimentos, nossos atos, ouvindo e acolhendo sua Palavra sempre viva e eficaz, dedicando mais tempo à oração, vamos fortalecendo as razões de nossa esperança e, assumindo a prática do perdão, da justiça, da misericórdia, da solidariedade, o verdadeiro e mais agradável jejum: “desatar os laços da maldade, desamarrar as correias do jugo, dar liberdade aos encurvados…” (cf. Is 58,6-7), como compromisso de “volta ao primeiro amor” (Ap 2,4), selado na fonte batismal.

Nossa vida torna-se, então, uma oferta de louvor, um sacrifício espiritual que apresentamos continuamente ao Pai, em união com Jesus, o Servo sofredor e pobre.

Quaresma como caminho de conversão para a fraternidade

O Concílio Ecumênico Vaticano II recorda que “a penitência quaresmal não deve ser apenas interna e individual, mas também externa e social” (Documento Sacrosanctum Concilium, 110). Esta exigência, como passo fundamental na caminhada pascal, é assumida por nós na Campanha da Fraternidade, que sempre nos pede conversão e solidariedade em situações bem concretas de nossa realidade, ainda marcada por extremado individualismo, por competição desmedida, pela “tirania do dinheiro”, pelo “capitalismo selvagem” e pela “globalização da indiferença”, como nos alerta continuamente o Papa Francisco.

Como sacramento pascal, a Quaresma nos chama à reconciliação e à mudança de vida, assumindo a busca da humanidade inteira por libertação, justiça, dignidade, reconciliação e paz. Alargamos o nosso coração, ouvindo de Deus o clamor, que anseia por direito e justiça, aguardando a manifestação de seus filhos e filhas.

Quaresma como caminho litúrgico

Neste tempo quaresmal a liturgia é uma oportunidade para vivermos bem esse caminho. Por isso, o ambiente celebrativo deve ser sóbrio: cor roxa, sem flores, destacando o altar, a mesa da Palavra e a fonte batismal. Também silenciamos o canto do glória e do aleluia, para retomá-los na Quinta-feira Santa e na Vigília Pascal.

O cartaz com o tema e o lema da Campanha da Fraternidade poderá, na medida do possível, ser ampliado e colocado em lugar onde possa ser bem visualizado. Não é aconselhável fixá-lo no altar ou na mesa da Palavra.

A Cruz ganha destaque

O ato penitencial poderá receber também um destaque maior como anúncio da misericórdia de Deus e de apelo à conversão, ligado com a realidade da vida, especialmente com a Campanha da Fraternidade.

Os cantos da Quaresma devem nos ajudar a contemplar e viver o mistério pascal do Cristo em nossa realidade.

Quaresma como caminho comunitário de compromisso

Assim, a Quaresma será um caminhar pascal comunitário, progressivo e amoroso das trevas para a luz, da morte para a vida, da escravidão para a liberdade dos filhos e filhas de Deus. Que esse compromisso nos leve a gestos concretos em relação à realidade da qual somos convidados a darmos nossa contribuição.


Organização e contribuição: Pe. Itamar A. Belebom | Formador Seminário Propedêutico Nossa Senhora da Assunção.
Texto: Maria de Lourdes Zavarez  | Mestre em Liturgia e membro da Equipe Rede Celebra

 

Publicado no JD de fevereiro de 2019

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