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Postado em 12 de Novembro às 09h05

Dia Mundial do Pobre - por Pe. Nelito Dornelas

Geral (23)
Diocese de Chapecó/SC Neste dezoito de novembro, um domingo antes da festa de Cristo Rei do Universo e dia dos cristãos Leigos e Leigas, a Igreja celebra o Dia Mundial do Pobre, concluindo uma Jornada Mundial do Pobre com uma semana de...


Neste dezoito de novembro, um domingo antes da festa de Cristo Rei do Universo e dia dos cristãos Leigos e Leigas, a Igreja celebra o Dia Mundial do Pobre, concluindo uma Jornada Mundial do Pobre com uma semana de duração. Este dia foi instituído pelo Papa Francisco com o objetivo de perpetuar os frutos da celebração do ano da misericórdia.

O pobre ocupa a centralidade do pastoreio de Francisco. Este resgate do pobre é a concretização do desejo de João XXIII, não realizado pelo Concílio Econômico Vaticano II. Quem captou esta mensagem foi um grupo de bispos, que no dia 16 de novembro de 1965 assinou o pacto das catacumbas e deixou suas indumentárias de ouro sobre o túmulo da mártir Santa Domitila. Em setembro de 1968 a segunda Conferência do Episcopado Latino-americano, em Medellín, declarou oficialmente a opção preferencial pelos pobres.

O Papa Francisco é o fruto maduro da caminhada eclesial deste Continente Latino Americano. Segundo afirmação do próprio papa, somente despois da Conferência de Aparecida, a Igreja latino-americana teria condições de levar para o magistério petrino sua rica experiência de opção preferencial e evangélica pelos pobres, regada pelo sangue fecundo de tantos mártires, cujo símbolo maior é o arcebispo de El Salvador, São Oscar Romero, canonizado aos 14 de outubro do corrente ano. A centralidade do pobre implica nas dimensões espirituais, teológicas, eclesiológicas, políticas e culturais. A pobreza é uma força espiritual profundamente evangélica e revolucionária.

Recordo-me aqui a rica experiência da Igreja no Brasil com o Mutirão Nacional pela Superação da Miséria e da Fome. Na ocasião discutia-se sobre a necessidade de um projeto político global para esta questão, considerando ser inaceitável que num país como o Brasil existisse trinta milhões de brasileiros sobrevivendo abaixo da linha da miséria. Com a campanha pela cidadania promovida por Betinho e o Mutirão da CNBB, estes brasileiros foram evidenciados. Com o apoio da Igreja e dos movimentos sociais e até mesmo com muita pressão social, o governo federal acabou criando políticas públicas de inclusão social. A miséria tornou-se pauta política pela primeira vez no Brasil.

Dos 30 milhões de brasileiros miseráveis ainda restam oito milhões sobrevivendo abaixo da linha da miséria, recebendo um dólar por dia. Segundo os analistas mais sérios, as reformas trabalhistas aprovadas pelo Congresso Nacional e as tantas outras reformas em andamento como a reforma da Previdência Social, quando de suas aplicações contribuirão e muito com o aumento da miséria e da fome, retrocedendo o Brasil aos tempos análogos ao da escravidão.

No cenário internacional são oitocentos milhões de famintos e mais oitocentos milhões de sedentos, portanto, ¼ da humanidade excluída das benesses do sistema capitalista. E segundo a FAO são necessários apenas oitocentos bilhões de dólares para equacionar esta situação. Quando o Papa Francisco afirma que esta economia mata, ele traz na mente e no coração esta multidão de descartados do banquete da vida.

Como o pontificado de Francisco é marcado por gestos evangélicos e atitudes transformadoras, a primeira visita que ele fez fora de Roma foi à Ilha de Lampeduza na Itália, que é a principal porta de entrada no continente europeu dos norte africanos fugindo da fome, da sede e das guerras. São imigrantes e refugiados famélicos, sedentos e náufragos. Outra atitude foi a proibição da venda de templos e construções de propriedades da Igreja para outras finalidades, com o argumento de que estes espaços religiosos foram construídos no passado para abrigar a Carne de Cristo, e, hoje, estas construções deverão ser destinadas a abrigar os imigrantes e refugiados que são a verdadeira Carne de Cristo chagada na história. Esta atitude do papa está em sintonia com o pensamento de um outro jesuíta, Pe. Antônio Vieira, que, no século XVII, afirmava o seguinte: quando os antigos queriam saber sobre a sorte que as divindades lhes reservavam, consultavam os rins dos animais sacrificados. E hoje, se quisermos saber que futuro nos espera temos que consultar as entranhas dos sacrificados da sociedade atual.

Termino esta reflexão com as palavras do teólogo e mártir luterano Dietrch Bonhoefer: A minha fome é uma questão biológica e material que devo saciá-la, enquanto que a fome do outro é para mim uma questão espiritual e teológica, que requer de mim atitudes caritativas, solidárias e responsáveis para socorrê-la.

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